sábado, 6 de dezembro de 2014

A serpente dos bordéis

A morena de curvas provocantes caminhava insinuante. Remexia hipnoticamente seus quadris perfeitamente desenhados, dentro de um corpete vermelho de detalhes pretos. As botas de salto alto eram pretas e fetichistas. Seus cabelos negros cacheados contrastavam com os olhos sombreados, pesada maquiagem do rosto e batom vermelho sangue brilhoso nos lábios carnudos. Uma pintinha repousava sobre a bochecha, complementando o visual de mulher da vida que lhe era próprio.

Ainda que a casa de tolerância emanasse luz vermelha forte, impedindo ver com clareza, não tardaria para que uma beldade como ela obtivesse seus primeiros “clientes”. Ainda assim, eram solenemente ignorados os pedido dos sertanejos que frequentavam aquele prostíbulo à beira de estrada. 

Era o terceiro bordel visitado naquela noite e a conversa, sempre a mesma:

- Ai estou com tanto medo deste tal de Mata Bode! - dizia ela para seus clientes em potencial, num tom de donzela indefesa.

As respostas, por outro lado, também não mudavam de formato, sendo sempre algo entre - Fique tranqüila que aqui você tem um macho pra te defender -  e  - Pois é, tomara que a CCSaR pegue logo este bandido!.

Ela já estava desistindo. Parecia que não encontraria nenhuma pista. Bordéis e espeluncas são excelentes locais para colher informações sobre bandidos, ainda mais um tão peculiar e violento quanto Mata Bode. Mas provavelmente ele ficara “entocado” durante o dia que passou, já que ninguém viu ou soube de nada.

Só que a noite ainda reservava surpresas para a estonteante Lucíola, a bela prostituta

- Não precisa ter medo - dizia um jovem que a mantinha sentada em seu colo - Eu o vi esta manhã, próximo a Fazenda do Boi Preto: ele pegou uma moça branquinha.

 - Virgem Santíssima! - exclamou Lucíola, fingindo perfeito espanto

Foi um horror aquilo! - prosseguia o jovem - O fedor de carne podre vinha de longe, não sei se dele, se da carroça dele, ou de ambos, já que a carroça estava totalmente vazia.

 - E o que o monstro fez com ela?

Ele a amarrou e a colocou na carroçaSabe lá Deus que maldades sofreu ou sofrerá nas mãos dele esta noite.

O olhar dela era especulativo, mas acobertado pelo semblante de inocência imperceptivelmente fingida.

- Mas vamos ficar falando disso, ou fazer um ‘amôzinho’ gostoso? – perguntava, lascivo, o jovem.

- Claro que prefiro um ‘amôzinho’, querido - respondeu ela.

Ambos foram para o quarto. Em situações assim, Lucíola somente fazia sexo e deixava seu cliente vivo. 

Mas naquele dia seria diferente. Ela tinha pressa. Não haveria sexo. Mas haveria morte pela covardia do jovem em ver o Mata Bode sequestrar uma garota e não fazer nada quanto a isto...


Um comentário:

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