Trovões
despencavam do céu. Iria chover, e muito.
Não
era a primeira vez que Pietro invadia a Biblioteca de Serafins pelas tantas da
madrugada. Odiava ler de dia e ainda tem o seu trabalho na CCSaR a lhe impedir
de freqüentar aquele templo do saber. Entretanto, era a primeira vez que fazia
isso com uma dúvida tão intrigante quanto aquela que, se amedrontava a seus
companheiros de caserna, também excitava sua curiosidade.
- Mas
o que será que Maria viu na Fazenda do Barão? - questionava-se
ininterruptamente Pietro.
A
solidão sugerida pela noite e as repentinas alumiações geradas pelas trovoadas
tornavam o local ainda mais estranho. Imagens barrocas de pedra sabão tanto na
fachada quanto no interior contrastavam com o estilo modernista do prédio,
construído durante a segunda metade da década de 20 especialmente para abrigar
a biblioteca e o arquivo municipal, acervos que o Caçador conhecia muito bem.
Se o prédio era novo e imponente, a estante, as caixas e os livros
encontravam-se em péssimo estado entre fios expostos, paredes descascadas e
teias de aranha, denotando claro descuido e gerando a sensação de se estar em
um mausoléu barroco onde coisas mortas repousavam.
Era
ali que se encontravam alguns dos mais preciosos livros e relatos arquivísticos sobre
os mitos brasileiros.
Pietro
buscava por dados que pudesse esclarecer suas dúvidas. Seus amigos o achavam
excêntrico, mas já salvara a vida de alguns deles com seu conhecimento. E sabia
que o horror que estavam enfrentando envolvia cães sinistros, pombos malhados
mortos, monstros que bebiam sangue e rituais satânicos:
A
questão naquele momento era descobrir quais coisas malditas seriam
aquelas!
Enquanto
empreendia seu árduo trabalho de pesquisa, a tempestade que se anunciara quando
entrou na Biblioteca despencou sobre o interior das Minas Gerais e, conseqüentemente,
sobre Serafins. Seus estudos avançaram por vários livros e documentos variados,
provenientes de compilações de estórias e arquivos confusos, paroquiais ou
judiciários, sobre mortes nas quais pessoas eram encontradas sem nenhuma gota
de sangue e atacadas pelos temíveis Cães da Meia Noite ou hordas estranhas de
pombos malhados. Histórias de homens simples convidados para jantar na Casa do
Barão, a residência mais antiga e rústica da cidade. Nunca mais retornaram,
reclamações estas obviamente ignoradas pelas autoridades locais por se
referirem a um dos poderosos latifundiários, típico “Coronel” do interior.
Os
relatos mais antigos datavam de 1840, quase um século antes, e alguns eram
ilegíveis. Pietro já tinha alguma ideia do que estavam enfrentando, mas o
barulho da chuva tirou um pouco de sua concentração, situação que se agravara
pelo estranho barulho de muitas asas se batendo. Mas nada que detivesse sua
exótica pesquisa, chegando, enfim, a temíveis conclusões.
Os
pombos malhados não atuavam por forças deste mundo, mas por um poder do Além
capaz de comandá-los conforme sua vontade, inclusive forçando-os a lutar até a
morte contra qualquer opositor de seu sinistro mestre. Tal mestre já fora
humano um dia, mas certamente não era mais: tornou-se noutra coisa, com a
velocidade de uma onça e a força de dez homens. Entretanto, para caminhar entre
as criaturas de Deus, ele necessitava beber sangue, sempre o suficiente para
tornar o horror de sua existência ainda mais inaceitável aos homens.
Mas
não era qualquer sangue que estes monstros poderiam apreciar. Era difícil
compreender o padrão ou ligação, mas eles não bebiam de qualquer homem ou
mulher. Talvez alguns lhes fossem restritos pelo Criador por serem santos
demais ou, em interpretações fora do âmbito teológico, de sangue menos
saboroso. De qualquer forma, eram estes horrores, seletivos com relação às suas
vitimas.
Mas
que destino terrível era ser uma vitima destes seres! Não necessariamente
morriam ao serem sugados - o que só ocorria em acessos não incomuns de grande
fome ou ira por parte do monstro - mas talvez fosse este um destino mais
misericordioso. Enquanto alimentam seus faustosos senhores, sua vida esvai-se
de seus corpos, tornando-os fantasmas ambulantes. O amor, a alegria, a dor, a tristeza,
a ambição, o desejo sexual... os sentimentos mais poderosos que podem mover um
homem ou mulher se esvaem com o sangue perdido, tornando a vitima desnutrida,
pálida e emocionalmente morta. As vítimas, por outro lado, não oferecem
resistência entregando-se à servidão e desfrutando viciantes e inexplicáveis
momentos de excitação e atração ao contemplarem seus senhores, ouvirem sua voz
e sentirem seu cheiro. Uma espécie de dominação sexual pervertida, mas de
origem não natural, com implicações sociais diretas e certamente malignas.
Não
era exagero, portanto, dizer que tais seres fossem parasitas, sustentados cruel
e desumanamente por pobres coitados que, em troca, entregam de bom grado suas
vidas a eles. Os nomes da monstruosidade variam, e as fontes chamam-nos de nosferatu, sanguini
homini, incubus, sucubu, vampiro. As mesmas fontes apontam inequivocamente
para o fato de que se tratava de uma linhagem deturpada desenvolvida Colônia
Portuguesa no século XVI, estando longe de ser bem definida de acordo com o os
documentos que Pietro tinha a mão. E assombravam ao jovem pesquisador quando
ele comparou, nas lendas compiladas, o nome e o possível tipo de vitima da
criatura que provinha da fazenda do Barão, o possível oponente que perseguiam.
Mas
era possível, de acordo com a pesquisa empreendida pelo jovem Caçador,
enfrentar tais horrores. A luz do sol os destrói totalmente com seus raios
dourados e purificadores enviados pelo Criador, posto que agia como o juízo
final sobre sua existência execrável. As coisas sagradas como água benta e o
crucifixo também os reprimem, pois não suportam a santidade emanada por estes
paramentos. De forma semelhante, os corpos mortos são altamente vulneráveis a
armas extraídas diretamente de material vivo - ou que já fora vivo - como
madeiras e ossos que, ao contrário das armas comuns criadas pelo homem - as
quais somente atordoam e causam mínima dor - podem feri-los e até destruí-los.
Por fim, a alimentação bizarra de tais criaturas é o que ainda as mantém entre
os vivos, portanto certas especiarias, legumes, grãos e raízes causam-lhe uma
dor excruciante por lembrar ao corpo e a alma da criatura o horror de sua
existência, sua condição inaceitável dentre os vivos. Pietro encontrou várias
versões para esta alergia de acordo com a região do país ou até mesmo do mundo
onde fosse consumida, como por exemplo, alho, arroz e pimenta. Todavia, parecia
que, ao menos na colônia, o remédio infalível contra tais seres foi a farinha
de mandioca.
Quanto
aos Cães da Meia Noite, os mitos eram abundantes. Também chamado de cão do
inferno, pois de lá são oriundos, criados por demônios e outros espíritos
malignos do Além pra atuarem como seus “cães de guarda” ou “cães de caça”.
Somente seu bafo fervilhante é mais mortal e medonho que seu latido, o qual
Pietro conhecia muito bem. Como a origem destas abjetas criaturas é a noite e a
escuridão, eles também são vulneráveis à luz do sol, tanto quanto a paramentos
sagrados.
Não
era difícil imaginar, acreditava o Caçador, que os sacrifícios de animais
realizados por Mata Bode trouxeram estes monstros caninos para o Mundo dos
Homens. Mas o pior:
-
Do que se tratam os rituais satânicos aos quais Mata Bode submeteu Maria, já que
estes de forma alguma podem estar relacionados aos ritos blasfemos de
conjuração de Cães da Meia Noite? - perguntava
para si mesmo.
Naquele
momento, o rapaz recebeu o maior susto de toda a sua vida.
Inúmeros
pombos malhados chocaram-se violentamente contra as janelas gloriosas e
antecedidas por imagens barrocas da fachada do prédio. Somente um milagre
explicaria o fato de seu coração não ter paralisado diante de cena tão
assombrosa.
Após
recuperar o fôlego e estabilizar sua respiração, o Caçador anotou tudo o que
descobriu em seu caderninho, sobretudo tendo o cuidado com as possíveis
fraquezas das monstruosidades. Retornou então para o quartel da Companhia onde
servia.
Trecho do livro Sombras da Revolução.
Trecho do livro Sombras da Revolução.

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