sábado, 6 de dezembro de 2014

Os arquivos sinistros de Serafins

Trovões despencavam do céu. Iria chover, e muito.

Não era a primeira vez que Pietro invadia a Biblioteca de Serafins pelas tantas da madrugada. Odiava ler de dia e ainda tem o seu trabalho na CCSaR a lhe impedir de freqüentar aquele templo do saber. Entretanto, era a primeira vez que fazia isso com uma dúvida tão intrigante quanto aquela que, se amedrontava a seus companheiros de caserna, também excitava sua curiosidade.

Mas o que será que Maria viu na Fazenda do Barão? - questionava-se ininterruptamente Pietro.

A solidão sugerida pela noite e as repentinas alumiações geradas pelas trovoadas tornavam o local ainda mais estranho. Imagens barrocas de pedra sabão tanto na fachada quanto no interior contrastavam com o estilo modernista do prédio, construído durante a segunda metade da década de 20 especialmente para abrigar a biblioteca e o arquivo municipal, acervos que o Caçador conhecia muito bem. Se o prédio era novo e imponente, a estante, as caixas e os livros encontravam-se em péssimo estado entre fios expostos, paredes descascadas e teias de aranha, denotando claro descuido e gerando a sensação de se estar em um mausoléu barroco onde coisas mortas repousavam.

Era ali que se encontravam alguns dos mais preciosos livros e relatos arquivísticos sobre os mitos brasileiros. 

Pietro buscava por dados que pudesse esclarecer suas dúvidas. Seus amigos o achavam excêntrico, mas já salvara a vida de alguns deles com seu conhecimento. E sabia que o horror que estavam enfrentando envolvia cães sinistros, pombos malhados mortos, monstros que bebiam sangue e rituais satânicos:

A questão naquele momento era descobrir quais coisas malditas seriam aquelas!

Enquanto empreendia seu árduo trabalho de pesquisa, a tempestade que se anunciara quando entrou na Biblioteca despencou sobre o interior das Minas Gerais e, conseqüentemente, sobre Serafins. Seus estudos avançaram por vários livros e documentos variados, provenientes de compilações de estórias e arquivos confusos, paroquiais ou judiciários, sobre mortes nas quais pessoas eram encontradas sem nenhuma gota de sangue e atacadas pelos temíveis Cães da Meia Noite ou hordas estranhas de pombos malhados. Histórias de homens simples convidados para jantar na Casa do Barão, a residência mais antiga e rústica da cidade. Nunca mais retornaram, reclamações estas obviamente ignoradas pelas autoridades locais por se referirem a um dos poderosos latifundiários, típico “Coronel” do interior.

Os relatos mais antigos datavam de 1840, quase um século antes, e alguns eram ilegíveis. Pietro já tinha alguma ideia do que estavam enfrentando, mas o barulho da chuva tirou um pouco de sua concentração, situação que se agravara pelo estranho barulho de muitas asas se batendo. Mas nada que detivesse sua exótica pesquisa, chegando, enfim, a temíveis conclusões.

Os pombos malhados não atuavam por forças deste mundo, mas por um poder do Além capaz de comandá-los conforme sua vontade, inclusive forçando-os a lutar até a morte contra qualquer opositor de seu sinistro mestre. Tal mestre já fora humano um dia, mas certamente não era mais: tornou-se noutra coisa, com a velocidade de uma onça e a força de dez homens. Entretanto, para caminhar entre as criaturas de Deus, ele necessitava beber sangue, sempre o suficiente para tornar o horror de sua existência ainda mais inaceitável aos homens.

Mas não era qualquer sangue que estes monstros poderiam apreciar. Era difícil compreender o padrão ou ligação, mas eles não bebiam de qualquer homem ou mulher. Talvez alguns lhes fossem restritos pelo Criador por serem santos demais ou, em interpretações fora do âmbito teológico, de sangue menos saboroso. De qualquer forma, eram estes horrores, seletivos com relação às suas vitimas.

Mas que destino terrível era ser uma vitima destes seres! Não necessariamente morriam ao serem sugados - o que só ocorria em acessos não incomuns de grande fome ou ira por parte do monstro - mas talvez fosse este um destino mais misericordioso. Enquanto alimentam seus faustosos senhores, sua vida esvai-se de seus corpos, tornando-os fantasmas ambulantes. O amor, a alegria, a dor, a tristeza, a ambição, o desejo sexual... os sentimentos mais poderosos que podem mover um homem ou mulher se esvaem com o sangue perdido, tornando a vitima desnutrida, pálida e emocionalmente morta. As vítimas, por outro lado, não oferecem resistência entregando-se à servidão e desfrutando viciantes e inexplicáveis momentos de excitação e atração ao contemplarem seus senhores, ouvirem sua voz e sentirem seu cheiro. Uma espécie de dominação sexual pervertida, mas de origem não natural, com implicações sociais diretas e certamente malignas.

Não era exagero, portanto, dizer que tais seres fossem parasitas, sustentados cruel e desumanamente por pobres coitados que, em troca, entregam de bom grado suas vidas a eles. Os nomes da monstruosidade variam, e as fontes chamam-nos de nosferatusanguini homini, incubus, sucubu, vampiro. As mesmas fontes apontam inequivocamente para o fato de que se tratava de uma linhagem deturpada desenvolvida Colônia Portuguesa no século XVI, estando longe de ser bem definida de acordo com o os documentos que Pietro tinha a mão. E assombravam ao jovem pesquisador quando ele comparou, nas lendas compiladas, o nome e o possível tipo de vitima da criatura que provinha da fazenda do Barão, o possível oponente que perseguiam.

Mas era possível, de acordo com a pesquisa empreendida pelo jovem Caçador, enfrentar tais horrores. A luz do sol os destrói totalmente com seus raios dourados e purificadores enviados pelo Criador, posto que agia como o juízo final sobre sua existência execrável. As coisas sagradas como água benta e o crucifixo também os reprimem, pois não suportam a santidade emanada por estes paramentos. De forma semelhante, os corpos mortos são altamente vulneráveis a armas extraídas diretamente de material vivo - ou que já fora vivo - como madeiras e ossos que, ao contrário das armas comuns criadas pelo homem - as quais somente atordoam e causam mínima dor - podem feri-los e até destruí-los. Por fim, a alimentação bizarra de tais criaturas é o que ainda as mantém entre os vivos, portanto certas especiarias, legumes, grãos e raízes causam-lhe uma dor excruciante por lembrar ao corpo e a alma da criatura o horror de sua existência, sua condição inaceitável dentre os vivos. Pietro encontrou várias versões para esta alergia de acordo com a região do país ou até mesmo do mundo onde fosse consumida, como por exemplo, alho, arroz e pimenta. Todavia, parecia que, ao menos na colônia, o remédio infalível contra tais seres foi a farinha de mandioca.

Quanto aos Cães da Meia Noite, os mitos eram abundantes. Também chamado de cão do inferno, pois de lá são oriundos, criados por demônios e outros espíritos malignos do Além pra atuarem como seus “cães de guarda” ou “cães de caça”. Somente seu bafo fervilhante é mais mortal e medonho que seu latido, o qual Pietro conhecia muito bem. Como a origem destas abjetas criaturas é a noite e a escuridão, eles também são vulneráveis à luz do sol, tanto quanto a paramentos sagrados.

Não era difícil imaginar, acreditava o Caçador, que os sacrifícios de animais realizados por Mata Bode trouxeram estes monstros caninos para o Mundo dos Homens. Mas o pior:

- Do que se tratam os rituais satânicos aos quais Mata Bode submeteu Maria, já que estes de forma alguma podem estar relacionados aos ritos blasfemos de conjuração de Cães da Meia Noite? - perguntava para si mesmo.

Naquele momento, o rapaz recebeu o maior susto de toda a sua vida.

Inúmeros pombos malhados chocaram-se violentamente contra as janelas gloriosas e antecedidas por imagens barrocas da fachada do prédio. Somente um milagre explicaria o fato de seu coração não ter paralisado diante de cena tão assombrosa.

Após recuperar o fôlego e estabilizar sua respiração, o Caçador anotou tudo o que descobriu em seu caderninho, sobretudo tendo o cuidado com as possíveis fraquezas das monstruosidades. Retornou então para o quartel da Companhia onde servia.

Trecho do livro Sombras da Revolução.



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