sexta-feira, 21 de julho de 2017

O ANCESTRAL QUE ROUBOU O FOGO - o Retorno de Mahyra (Mitologia Indígena em Lamento de Tupã, Ep. 02, Tem. 01)

- Porque voltou até aqui? – perguntou a grande Arara Vermelha ao homem belo, forte e imponente, logo após pousar ao galho chamuscado da única árvore que restara de pé.

- Foi onde tudo começou. Sempre venho aqui antes de tomar uma decisão – respondeu Mahyra, cabisbaixo, naquele campo reduzido às cinzas e carvão.

- Vai mesmo em busca dele? – perguntou a grande Arara Vermelha.

Aquelas perguntas interrompiam lembranças. Com um pé sobre uma pedra, ele lembrava-se da batalha que travou em tempos tão distantes contra Ió-Uurubu, a fim de tomar-lhe o Segredo do Fogo e sobreviver ao incêndio que destruiu o Primeiro Paraíso.

- Antes, preciso retornar ao Mundo dos Homens – disse Mahyra, cuja resposta o vento soprou junto as cinzas do campo incendiado...



quinta-feira, 20 de julho de 2017

TUPÃ AFOGA AO ANHANGÁ: O SINISTRO BEBEDOURO DAS ALMAS (Lamento de Tupã, Episódio 01, Temp 01)

Um relâmpago despencou das estrelas, fazendo a água do rio jorrar numa altura acima das copas das árvores.

Debaixo d’água, agonizava o ser cujo rosto era uma pintura em forma de caveira. A poderosa mão segurava seu pescoço enquanto ele se debatia sob as águas do rio, que ferviam de forma cada vez mais intensa conforme lutava.

Quando o brilho de seus olhos vermelhos apagaram-se, ergueu-se então do rio outro corpo. A noite profunda não permitia vê-lo completamente se não pelo corpo belo e poderoso contra a luz da lua:

- Você não me deixou outra escolha – disse aquele que se ergueu do rio, tornando-se um relâmpago e retornando ao céu.

Em redor, criaturas gemeram, assobiando e fazendo com que as feras noturnas fugissem. Um farfalhar de folhas denunciava também a desesperada dos pássaros em redor. De toda parte, aquelas criaturas translúcidas e cadavéricas vinham em direção às margens do rio. Levavam água daquele rio à boca, como se tentassem desesperadamente saciar sua sede.

O funeral havia terminado. E daquele dia em diante aquele rio seria conhecido como Anhangabaú, o Bebedouro das Assombrações.




quarta-feira, 12 de julho de 2017

Ticê e o Jogo das Máscaras

O motorista do táxi abriu a porta do carro. Dele desceu o homem de smoking branco impecável, lenço prateado ao bolso, calça preta, sapato engraxado brilhando. Antes, havia saído uma mulher de delicada pele achocolatada, vestido vermelho, cabelos castanho crespos, rosto angelical e discreto.

- Nomes, senhor? – perguntou gentilmente o recepcionista.

O homem mostrou discretamente o distintivo.

- Imagino que o Gilmar havia lhe dito que eu viria.

O recepcionista fez um movimento positivo e quase imperceptível com a cabeça. Depois gesticulou com a mão para que o casal adentrasse às portas douradas do hotel.

- Por aqui, Investigador – disse ele.

Eles caminharam pelo tapete vermelho, de braços dado entre os outros convidados, todos em trajes de gala. Das guias e talismãs que ela normalmente ostentava, somente a figa de ouro estava consigo, amarrada em seu pulso direito.

Tomaram o elevador e não tardaram a chegar à cobertura, onde a banda tocava. Apesar do champanhe fartamente servido, o casal foi direto ao bar.

A mulher nem permitiu que seu acompanhante fizesse as honras:

- Vinho Branco, por favor – pediu ela, sentando-se no banco.

- Para o senhor? – perguntou o barman, enquanto servia a mulher.

- Água tônica – disse o Investigador, sentando-se ao lado da mulher e perguntando - acha que será difícil acha-la?

A dama que o acompanhava reagiu com um calafrio, abraçando os ombros. Ela possível ver que estava arrepiada devido a perfeição de sua pele exposta no vestido tomara que caia. Suas feições também se empalideceram.

- Não será trabalho algum! – revelou ela, olhando para o centro do saguão.

Lá estava a mulher que procuravam. De vestido negro, decote amplo entre os seios, cabelos negros longos e lisos, sorriso diabólico nos lábios vermelhos. Falava ao ouvido de outra das convidadas, uma mulher de cabelos cacheados presos e vestido marfim.

Tão logo ela terminou de falar, a jovem cruzou o salão foi até seu noivo, lançando champanhe em seu rosto e começando um escândalo logo abafado pelos organizadores da festa.

- Tem certeza de que é ela? – perguntou o homem.

Sua acompanhante somente mirou-lhe no rosto, com semblante sarcástico de desaprovação. Ela então passou então a sussurrar algo, segurando a figa de ouro em seu pulso direito.

Ele entendeu a deixa.


...


O rapaz levantou-se, deixando seu copo ao balcão, e foi em direção à dama no centro do saguão. Ela bebericava vinho tinto ao invés de champanhe, e sorria enquanto a festa era retomada após o escândalo.

- Ticê? – falou o homem ao pé do ouvido da mulher, chegando por trás dela.

A mulher abriu um sorriso diabólico, porém sutil.

- Posso ajuda-lo? – perguntou ela, virando o rosto sobre o ombro, em direção ao cavalheiro atrás de si.

- Sim. Digamos que eu tenha interesse em alguns de seus jogos...

- Meus jogos? - seu tom era deliberadamente sínico.

- Permita-me apresentar-me...

Ela não permitiu.

- Investigador Natã, da Polícia Civil do Distrito Federal – disse ela, virando-se calmamente para o homem.

Natã estreitou os olhos. Sentiu-se frustrado por não ter o elemento surpresa com o qual pensava contar.

- Mas...eu sempre pensei que seu trabalho era acabar com jogos, Investigador – disse ela, após vistoriar o belo corpo do rapaz diante de si, voltando a olhar-lhe nos olhos enquanto passeava com o dedo indicador pelas bordas da taça de vinho que tomava.

- Alguns de seus jogos são muito mais antigos que o meu trabalho, senhora – respondeu ele, pegando um copo de água tônica do garçom que acabara de passar.

- Hummm...e algum em especial está lhe despertando o interesse? – perguntou a mulher, acariciando suavemente com os dedos o lado do rosto dele, logo abaixo de seus cabelos com brilhantina.

- Sim. Um em especial. Um triângulo amoroso. Que a senhora provocou.

- Talvez tenha de ser mais específico...

A banda tocava. Uma balada. Casais começavam a dançar.

- Um triângulo do qual a senhora tomou parte. E que...digamos assim...deixou um sujeito trovejando de rancor, e um outro com os olhos fumegando de raiva!

Ela disparou uma curtíssima risada. Nada discreta e completamente incompatível com o decoro da festa. Todos olharam para ela, mas, logo em seguida, voltaram às suas conversas.

- Sabe, Investigador Natã...temos algo em comum. Você e eu – ela falava aproximando a boca do ouvido dele,  revelando-lhe caninos um pouco mais afiados e protuberantes que o normal.

- E o que é?

- Ambos ficamos muito melhores em nossas máscaras e adornos! – disparou Ticê, pondo a mão delicadamente no bolso de Natã e puxando levemente o lenço prateado dobrado dentro dele.

Ele imediatamente afastou-se da mulher com um passo para trás, e segurou o lenço antes que ela o retirasse por completo de seu bolso. 

- Ademais, eu não quero arrumar problemas com aquela sua amiga, rezando para o Sumé. Ou para Oxalá, como ela prefere. – proferiu a mulher, sorrindo aquele sorriso diabólico.

Natã olhou para trás e viu Luwana, sua acompanhante, compenetrada e mirando-lhes, mas ainda segurando a figa e sussurrando uma reza.

- Se desejar mais algum jogo, meu querido, me procure mais tarde. Em meu quarto...mas usando este lenço! Estarei adornada para ti, e quero que também esteja para mim – ordenou ela - Agora, se me dá licença, vou até aquele Delegado de Polícia ali. Ele tem planos para uma chacina, a fim de incriminar o Titular e tomar o comando da delegacia!

Ticê, segurando a barra da saia, foi em direção ao Delegado, que conversava numa roda de homens, deixando Natã estupefato e afrontado.

...

Contrariado, Natã respirou fundo e retornou ao abr, onde estava Luwana, que já havia soltado a figa e interrompido a reza.

- Então? – perguntou  ela.

- Ela é realmente cheia de malícia, de jogos e de encantamentos – disse ele, tomando-a delicadamente pelo braço e retirando-se da festa.

- Conte-me a novidade! – ironizou Luwana.
- Ela marcou comigo...no quarto dela.

- E você vai...agora?

- Não – ele demonstrava estar afoito – antes preciso resolver uma coisa.

- O que??

- Impedir um jogo!

Ticê, no traço de Natália Duarte

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A Deusa da Lua Cheia


Uma viúva atendeu a porta. Tocara a campainha uma mulher alta, de olhos azuis claros e cabelos negros lisos que chegavam a brilhar quando a luz refletia sobre eles.

Intrigada a viúva mirou, com os olhos marejados de lágrimas, a visita que havia chegado. Buscou uma forma de repreender a falta de educação daquela estranha, por bater em sua porta naquela hora da madrugada.

As palavras, porém, fugiam de sua boca. Não reagiu quando a estranha mulher adentrou em seu belo casarão.

A visitante caminhava de forma majestosa e sem nenhum constrangimento pela sala de mobília nobre, estufados escarlates, talheres, lamparinas e castiçais de ouro. Ela ostentava brincos e colares brilhantes, como o vestido justíssimo em seu corpo de pele delicada.

Um grande relógio de madeira marcava exatamente meia-noite. Um gramofone que tocava uma balada tristíssima.

– Você fará um favor para mim – disse a misteriosa visita, olhando para oquadro na parede onde figurava a dona do casarão, em lindíssimo vestido de noiva, e um homem de smoking igualmente requintado.

Nem na foto, nem pessoalmente, a viúva aparentava ter sequer quarenta anos.

– O-oque? – perguntou a dona do casarão, de olhos arregalados para aquela mulher. Estava com a mão na maçaneta e a porta ainda aberta, pela qual era possível ver a Lua Crescente no céu.

– Você comprará um imóvel abandonado na Cidade de Serafins. Lá, construirá um hospício, contratando médicos e enfermeiros. Haverá um único quarto, e um único paciente.

A anfitriã tentava desesperadamente compreender por que não colocar aquela mulher para fora, logo depois de exigir saber quem era ela e por qual razão deveria obedecê-la.

Mas a única coisa que conseguiu fazer foi indagar:

– Quem será este paciente?

A visitante virou-se à anfitriã:

– Apenas construa – respondeu a mulher – A pessoa se apresentará a você, voluntariamente.

A dona do casarão franzia a testa, meneando lentamente a cabeça.

– Devo então pagar pelo tratamento desta pessoa? – perguntou.

– Não. Ela ficará apenas oito dias. Depois você deverá dar-lhe alta. Independente do que os médicos disserem.

A anfitriã apenas contemplou o andar imponente de sua visita enquanto ela ia em direção à porta. E, com a Lua cheia brilhando ao céu, olhando de forma blasé por cima do ombro, ela arrematou:

– Mais uma coisa. Você terá de inaugurar o hospício e receber seu paciente na ultima noite de Lua Cheia, assim que concluir as obras. Tão logo o sol se ponha.

Ela desceu o lance de três escadas que levavam à porta do casarão. Atravessou o jardim, passou pelo pequeno portão e caminhou em direção à esquina, desaparecendo na noite.

Quanto a dona do casarão, ela ainda estava lá. De pé. Boquiaberta e segurando a maçaneta da porta escancarada.


Os dias se passaram. A viúva mal dormia. Varava as noites acordada, escutando músicas tristes no gramofone. Tentou até poderosos calmantes e chás para dormir. Nada.

Madrugada após madrugada, ela só fazia lembrar da estranha mulher de beleza exuberante que havia lhe visitado. Quem seria ela? Que pedido estranho era aquele? E porque não conseguia esquecer essa história toda?

Quase uma semana, e ela não suportou mais. Foi até uma corretora de imóveis, e começou a agilizar a compra de um imóvel para fazer o hospício. Na verdade, o mini hospício.

As semanas foram se passando conforme ela contratava pessoal especializado, pedia ajuda, leia sobre hospitais psiquiátricos em bibliotecas e as obras andavam em Serafins.

Seu sono, contudo, foi melhorando sensivelmente neste período. E, para seu deleite, cada vez mais sonhava com o falecido marido. Sonhos vívidos, belos, nos quais ela dançava com ele, bebiam, comiam, riam. Era como se ele pudesse visita-la todas as noites, em seus sonhos.

Assim o tempo foi se passando. A obra quase pronta. Os sonhos, cada vez mais intensos.

A próxima Lua Minguante se aproximava. Era a hora de finalmente dar um fim àquilo tudo e, quem sabe, desvendar tal mistério.


A noite se aproximava. O hospício ficava numa rua movimentada de Serafins, onde havia muitas lojas, botequins e cafés. Era um prédio improvisado de quatro andares, na frente do qual estava a viúva, com sua tradicional elegância e discrição nos trajes negros, quatro enfermeiros, uma secretária e um psiquiatra, todos contratados.

Todos intrigados, pois jamais entenderam a história da tal viúva. Mas, como o salário estava em dia…

Chovera muito, e a rua estava molhada. O crepúsculo anunciava que o sol já se retirava no horizonte. As luzes da rua já estavam acesas, e a qualquer momento a Lua Cheia reinaria no céu cujas nuvens da chuva já haviam se dissipado.

Todos então viram se aproximando o belo Chevrolet vermelho 1915.

A viúva respirou fundo e arregalou os olhos ao ver a mesma mulher que meses atrás havia lhe procurado numa noite de Lua Crescente para pedir que abrisse o hospício. Ela estava banco elevado da parte de trás do carro, entre dois belos homens de smoking branco e flores-de-maio adornando o bolso do paletó. Em um justíssimo vestido vermelho decotado beijava a ambos os rapazes, mordiscando seus lábios e bebendo com eles às gargalhadas em taças de champanhe.

O carro parou.

Ela desceu. Claramente afetada pela bebida.

– Então – perguntou, com a voz embriagada, a misteriosa mulher – onde fica meu quarto?

Ela entrou, acompanhando dos enfermeiros e do psiquiatra.

A porta ficou aberta. com a viúva perdida num olhar vazio, iluminada pelas lamparinas da rua e pela tênue Lua Cheia no céu.

No dia seguinte, seria Lua Minguante. E o terror começaria...


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O homem que desafiou aos deuses

A feição do cacique era de horror. Boquiaberto, ele caminhava entre os mortos, seguido pelos guerreiros de sua tribo.

As mulheres da aldeia choravam copiosamente. Seus filhos e maridos jaziam, pelas ocas, junto as paredes do lado de dentro e do lado de fora, amontoados ao centro do povoado, jogados ali e ali.
Feridos violentamente com golpes de porretes e tacapes, o sangue era explicitamente exposto.

Pindarô, honorável cacique dos Uaiás, não tinha palavras para descrever tamanha atrocidade. Ainda tentando compreender o que se dera naquela aldeia, que dias antes o convidara para uma visita de paz entre as tribos, observou que um dos homens erguia a mão com enorme dificuldade, sinalizando ao sábio líder.

O cacique aproximou-se dele, pondo um joelho ao chão, segurando-lhe a mão e aproximando o ouvido de sua boca. O homem, num gigantesco esforço, disse então suas ultimas palavras:

- Ele disse vir em nome do senhor - tosse de sangue - Quando nos reunimos todos no centro da aldeia, eles nos atacou - gemido de agonia – ria enquanto nos matava...era poderoso demais.

Pindarô então levantou-se. Não podia conter nem o assombro nem o desespero em seu rosto, devido a tão detestável maldade.

Os céus então trovejaram. Trovejaram de uma forma que o cacique jamais ouvira.

E ele então percebeu que o mesmo horror que o arrebatara ao chegar na aldeia, também havia tomado aos deuses.

...

Pirarucu navegava uma grande canoa no grande Rio Tocantins. Gargalhava enquanto falava da forma fácil com que derrotou uma aldeia inteira de guerreiros, embora seus amigos e irmãos Uaiás estivessem incomodados.

- Ainda não entendemos porque fez aquilo – disse um deles.

- Não tem que entender...tem que sentir vontade de fazer e fazer! Essa é minha vida! É intensa, é vida de valente! – respondeu Pirarucu.

- Você é o mais poderoso de todos os guerreiros. Já derrotou tribos inteiras sozinho, e pós ao chão bestas terríveis e gigantescas – dizia outro de seus amigos, remando a canoa – não precisava provar isso.

Verdade – completou outro dos uaiás na canoa - e teu pai negociou a paz por semanas. Ficará furioso ao saber do que fez.

- Meu pai é complacente demais – respondeu Pirarucu – e ademais, o que fará ele?

- Não devias zombar assim de seu pai, Pirarucu – disse outro dos seus amigos.

- Por que não? – questionou o guerreiro – o que pode ele fazer?

Os seus amigos nada disseram, apenas olhavam a ele, assustados.

- Parem com esta tolice! – continuou Pirarucu de pé e gabando-se sobre a canoa – ele nada pode fazer. Ninguém, nem neste Mundo, nem no Outro, pode me deter no que eu quiser fazer!

Os demais remadores da canoa ficaram ainda mais preocupados com as palavras de Pirarucu, que não percebeu as nuvens fecharem-se de forma sobrenaturalmente veloz acima de si.

Seus amigos estavam apavorados por jamais terem visto tempo fechar-se assim. As trovoadas no céu, apocalípticas, foram o prenuncio do que estava por vir.

- Olhe para cima! - Disse um dos uaiás.

Pirarucu olhou, dando-se conta dos raios que despencavam pela floresta em redor. Um após o outro, sem descanso, sem intervalo, incendiando a mata às margens do rio.

- Temos que sair daqui antes que caia a tempestade – disse um dos remadores.

- Como? As margens estão em chamas! – retrucou outro.

Pirarucu então olhou para frente, e viu Iururaruaçu, a Yibiá das torrentes d’água, erguer-se imponente do rio na forma do busto exuberante de uma mulher cujo corpo e feições do rosto eram de águas revoltosas.

A Tempestade desabou, enquanto o guerreiro gargalhava, displicentemente:

- Lhe irritei, Tupã? – gritava ele, enquanto seus amigos, desesperados, pediam que o poderoso campeão parasse com o deboche.

Iururaruaçu então bateu com as duas mãos no rio, gerando uma onda gigantesca.

Os demais uaiás gritavam de medo enquanto Pirarucu ainda gargalhava, quando a onda lançou longe a canoa, arremessando-a próxima a duas serras e destruindo-a devido ao impacto com uma robusta árvore.

...

Pirarucu ergueu-se, com dificuldade, levantando-se dentre os destroços da canoa. Ao seu redor, o incêndio tomava toda a mata, alastrando-se para o pé das serras em redor. Somente a tempestade que desabava do céu era suficiente para arrefecer aquelas chamas.

- Isso foi tudo o que tinha? – perguntou ele, olhando para o céu.

Foi então que, recebendo a chuva em seu rosto, o guerreiro contemplou.

Descia do Céu um homem de majestoso cocar negro adornado com penas cinza de pássaros. As mesmas penas saiam de seus braços pela indumentária junto ao peito. Pinturas negras e azuis brilhantes, de tonalidade claramente onírica e sobrenatural, adornavam seus braços e pernas.

Seus olhos eram vazios, porém o semblante, cheio de ira. A tempestade descia com ele, que planava lenta e imponentemente entre as cerras.

Olhava fixamente para Pirarucu.

O homem ao chão mirava hereticamente ao deus diante de si. Trovões faziam um estrondo que podia ser ouvido dias e noites de distância, e agravavam a tensão entre eles.

- Xandoré, o dono dos trovões! – disse Pirarucu, enquanto mais relâmpagos alumiavam o céu em instantes de luz que faziam a noite semelhar-se ao meio-dia – Tupã mandou-lhe para que eu pedisse perdão?

Xandoré sorriu.

Não – respondeu ele, com voz cavernosa, enquanto erguia o dedo indicador às cinzas nuvens no céu – mandou-me aqui para fazer a ti o que fizeste àquela aldeia.

Pirarucu não teve tempo de dizer frases de efeito ou, típico de seu ego infantilóide, disparar uma bravata visando ter sempre a ultima palavra num embate. Como que obedecendo ao comando de Xandoré, um raio vindo da direção de onde seu dedo apontava caiu do céu, atingindo ao guerreiro, iluminando seu corpo e fazendo seus ossos aparecerem sob a pele.

Pirarucu caiu ao chão de bruços, atordoado com tamanho poder.

Xandoré desceu lentamente, tocando ao chão. Estava distante de Pirarucu, e caminhava em direção a ele rindo de forma sinistra.

- Não compreendo porque Tupã não o destruiu antes – dizia Xandoré ao caminhar – você é desprezível. E mais fraco do que imaginei...

Nunca, em nenhuma era, aquele Yibiá imaginou ver alguém que não Tupã surpreendê-lo por ser mais veloz. Assim, ficou estupefato quando, num piscar de olhos, Pirarucu virou-se e arremessou uma das lanças que os uaiás traziam consigo, que estava perto de si junto aos destroços da canoa.

Foi um arremesso tão poderoso que trespassaria três homens. Xandoré, contudo, segurou a lança antes que ela o atingisse, desfazendo-a em pó logo em seguida.

Xandoré novamente riu sua risada sinistra, principalmente ao ver Pirarucu erguendo-se e pegando o remo da canoa com as duas mãos, apontando-lhe a peça.

- Enlouqueceu com o relâmpago em sua cabeça? Ou está tão desesperado a ponto de achar que pode me derrotar com isso? – disse ele.

- Dispare novamente, e vai ver o que é loucura! – desafiou Pirarucu.

Xandoré sorriu, e apontou novamente o dedo, desta vez para Pirarucu. Um raio saiu de seu dedo, iluminando dramaticamente toda a planície sob a tempestade.

Porém, não atingiu a Pirarucu. Este apontava o remo em direção a Xandoré, aparando o raio, concentrando o poder, mas causando enorme dor ao guerreiro.

- Não é possível – pensava Xandoré com o dedo ainda apontado a descarregar o raio – nenhum homem poderia fazer isso! E ainda resistir a meu poder!

Pirarucu pôs um joelho ao chão. Já não suportava a dor enquanto Xandoré prosseguia a mirar-lhe o relâmpago.

O guerreiro então, num esforço gigantesco e aproveitando-se de sua posição com um joelho ao chão, levou a madeira sobre seu ombro direito e, com toda a sua força, arremessou-a contra Xandoré.
O inacreditável ataque atingiu ao alvo, gerando uma explosão de luz que pôde ser vista e ouvida lá da aldeia onde Pindarô estava.

...

As chamas já estavam apagadas. Sob a chuva, Pirarucu tentava recuperar as energias devido a tão épico feito. Botava sangue pela boca, e sua pele ficara áspera, enegrecida, rígida, estranha.

Naquele momento, era Pirarucu quem ria. Já imaginava as aldeias cantando sua vitória, e pensou em alguma bravata para gabar-se diante de Tupã por ter derrotado o poderoso Xandoré.

Foi, contudo, logo interrompido em seus pensamentos.

- Do que estás rindo Homem? – disse Xandoré, erguendo-se imponente de uma cratera que se formou com o impacto do ataque de Pirarucu. Não se via nele nenhuma marca de ferimento – achou que poderia derrotar ao poderoso Xandoré?

Pirarucu ficou furioso, mais ainda, frustrado. Xandoré novamente flutuou, agora acima da cratera que se formou com o impacto onde fora atingido, erguendo desta vez a mão e capturando nela um raio muito maior e estrondoso.

Pirarucu nada mais tinha à mão. Correu então em direção a mata próxima, a fim de fugir dos ataques furiosos de seu poderoso inimigo, que divertia-se ao disparar os raios como se fossem lanças. Estas geravam pequenas explosões ao chão, fazendo Pirarucu pular, saltar e cambalhotar para esquivar-se.

O guerreiro então tentou esconder-se sob os galhos das árvores mais longínquas, que não haviam sido queimadas.

Voando sobre elas, Xandoré ria ainda mais, sobretudo ao surpreender Pirarucu tomando fôlego junto a um tronco.

O deus dos trovões segurou novamente um raio, e um grito de horror se seguiu.

O disparo raio chegou a atravessar seu peito, atingindo em cheio ao coração do guerreiro, que tombou imediatamente.

Com um sorriso no rosto, Xandoré preparava-se para retornar ao céu. Mas, às suas costas, um suspiro desesperado foi emitido pela sua vítima.

- Peça perdão, homem! – ordenou Xandoré, ao ver que, surpreendentemente, o guerreiro não havia morrido.

Pirarucu tentava respirar. E, em meio a tentativa, riu, debochando da oferta.

Xandoré apenas meneava a cabeça em tom negativo.

O guerreiro então levantou-se, cambaleante. Corria, caia, rastejava...moveu-se como podia, chegando a aldeia onde seu pai estava.

Lá, todos os que viram sua pele estranha e o sangue que vertia fugiram horrorizados para a mata, com exceção de seu resignado pai.

Xandoré, que o seguia de longe voando pelos céus, viu ao guerreiro caído ao meio da aldeia. Farto daquela batalha, porém estupefato, desceu novamente, tocando ao chão e pegando o corpo do guerreiro.

O Yibiá então lançou Pirarucu ao mais profundo do rio, enquanto sua pele ficava ainda mais áspera e rígida.

Pindarô chorava o destino do filho. Ele, ainda vivo e agonizando, tornou-se um grande peixe. O Primeiro Pirarucu. Xandoré, por sua vez, retornou ao Céu, cessando a tempestade e refletindo sobre a força daquele guerreiro, somente proporcional a sua maldade e pequenez de caráter.

(Texto de Silva Pacheco - Lamento de Tupã)

Xandoré, na belíssima arte de Natália Duarte

segunda-feira, 21 de março de 2016

Relembrando Tagmar

Em 17 de Dezembro de 2011, publiquei um artigo na Rede RPG sobre Tagmar e seus 20 anos.

Era um artigo que julgo ingênuo no sentido teórico (como historiador) mas que, ao meu ver sintetiza bem a importância deste título para o RPG Nacional e se ancora com rigor em fonte para afirmar o que se propõe.

De qualquer forma, sempre acho válido relembrar e rememorar os clássicos nacionais. E em termos de clássico, nada supera Tagmar e Bandeirantes no Brasil!

Segue aqui a introdução do artigo, que você pode ler na integra aqui.


O primeiro RPG nacional completa 20 anos, marcados pela polemica, coragem e pioneirismo. Amado, refutado, difamado, (in?)justamente(?) criticado, dado como morto, ressurreto, fracassado, triunfante … todos estes termos podem se aplicar a Tagmar e, ao mesmo tempo, são incapazes de defini-lo por completo!

O título do artigo pode denotar que se trata das inovações trazidas pelo projeto Tagmar II nos últimos anos, mas na verdade não é exatamente isto. Uma das funções do historiador é dialogar com o passado refletindo não somente o que havia de permanente, mas também de originalidade, é buscar aquilo que ficou encoberto, é lançar luz sobre as trevas produzidas por contextos específicos e pelo tempo decorrente a partir deste.

Sim, falarei sobre inovações. Mas não, não falarei sobre o Tagmar II. Desejo retornar ao inicio da década de 1990. Desejo falar sobre o projeto inicial de Tagmar, revisita-lo, observar o que trazia de original em seu contexto. Pretendo, em suma, compreender o Tagmar em seu contexto de criação, enquanto RPG naquele período.

Assim, este artigo tem como objetivo olhar novamente para o Tagmar em perspectiva comparativa e histórica.Comparativa porque pretendo contrastar este título com outras obras da década de 1990, sobretudo as mais conhecidas no Brasil: GURPS, D&D e AD&D. Histórica porque me atenho ao momento no qual Tagmar foi lançado, a fim de detectar elementos nos quais ele estava a frente de seu tempo (e, conseqüentemente, outros nos quais apresentava retrocesso).

sábado, 6 de dezembro de 2014

Os arquivos sinistros de Serafins

Trovões despencavam do céu. Iria chover, e muito.

Não era a primeira vez que Pietro invadia a Biblioteca de Serafins pelas tantas da madrugada. Odiava ler de dia e ainda tem o seu trabalho na CCSaR a lhe impedir de freqüentar aquele templo do saber. Entretanto, era a primeira vez que fazia isso com uma dúvida tão intrigante quanto aquela que, se amedrontava a seus companheiros de caserna, também excitava sua curiosidade.

Mas o que será que Maria viu na Fazenda do Barão? - questionava-se ininterruptamente Pietro.

A solidão sugerida pela noite e as repentinas alumiações geradas pelas trovoadas tornavam o local ainda mais estranho. Imagens barrocas de pedra sabão tanto na fachada quanto no interior contrastavam com o estilo modernista do prédio, construído durante a segunda metade da década de 20 especialmente para abrigar a biblioteca e o arquivo municipal, acervos que o Caçador conhecia muito bem. Se o prédio era novo e imponente, a estante, as caixas e os livros encontravam-se em péssimo estado entre fios expostos, paredes descascadas e teias de aranha, denotando claro descuido e gerando a sensação de se estar em um mausoléu barroco onde coisas mortas repousavam.

Era ali que se encontravam alguns dos mais preciosos livros e relatos arquivísticos sobre os mitos brasileiros. 

Pietro buscava por dados que pudesse esclarecer suas dúvidas. Seus amigos o achavam excêntrico, mas já salvara a vida de alguns deles com seu conhecimento. E sabia que o horror que estavam enfrentando envolvia cães sinistros, pombos malhados mortos, monstros que bebiam sangue e rituais satânicos:

A questão naquele momento era descobrir quais coisas malditas seriam aquelas!

Enquanto empreendia seu árduo trabalho de pesquisa, a tempestade que se anunciara quando entrou na Biblioteca despencou sobre o interior das Minas Gerais e, conseqüentemente, sobre Serafins. Seus estudos avançaram por vários livros e documentos variados, provenientes de compilações de estórias e arquivos confusos, paroquiais ou judiciários, sobre mortes nas quais pessoas eram encontradas sem nenhuma gota de sangue e atacadas pelos temíveis Cães da Meia Noite ou hordas estranhas de pombos malhados. Histórias de homens simples convidados para jantar na Casa do Barão, a residência mais antiga e rústica da cidade. Nunca mais retornaram, reclamações estas obviamente ignoradas pelas autoridades locais por se referirem a um dos poderosos latifundiários, típico “Coronel” do interior.

Os relatos mais antigos datavam de 1840, quase um século antes, e alguns eram ilegíveis. Pietro já tinha alguma ideia do que estavam enfrentando, mas o barulho da chuva tirou um pouco de sua concentração, situação que se agravara pelo estranho barulho de muitas asas se batendo. Mas nada que detivesse sua exótica pesquisa, chegando, enfim, a temíveis conclusões.

Os pombos malhados não atuavam por forças deste mundo, mas por um poder do Além capaz de comandá-los conforme sua vontade, inclusive forçando-os a lutar até a morte contra qualquer opositor de seu sinistro mestre. Tal mestre já fora humano um dia, mas certamente não era mais: tornou-se noutra coisa, com a velocidade de uma onça e a força de dez homens. Entretanto, para caminhar entre as criaturas de Deus, ele necessitava beber sangue, sempre o suficiente para tornar o horror de sua existência ainda mais inaceitável aos homens.

Mas não era qualquer sangue que estes monstros poderiam apreciar. Era difícil compreender o padrão ou ligação, mas eles não bebiam de qualquer homem ou mulher. Talvez alguns lhes fossem restritos pelo Criador por serem santos demais ou, em interpretações fora do âmbito teológico, de sangue menos saboroso. De qualquer forma, eram estes horrores, seletivos com relação às suas vitimas.

Mas que destino terrível era ser uma vitima destes seres! Não necessariamente morriam ao serem sugados - o que só ocorria em acessos não incomuns de grande fome ou ira por parte do monstro - mas talvez fosse este um destino mais misericordioso. Enquanto alimentam seus faustosos senhores, sua vida esvai-se de seus corpos, tornando-os fantasmas ambulantes. O amor, a alegria, a dor, a tristeza, a ambição, o desejo sexual... os sentimentos mais poderosos que podem mover um homem ou mulher se esvaem com o sangue perdido, tornando a vitima desnutrida, pálida e emocionalmente morta. As vítimas, por outro lado, não oferecem resistência entregando-se à servidão e desfrutando viciantes e inexplicáveis momentos de excitação e atração ao contemplarem seus senhores, ouvirem sua voz e sentirem seu cheiro. Uma espécie de dominação sexual pervertida, mas de origem não natural, com implicações sociais diretas e certamente malignas.

Não era exagero, portanto, dizer que tais seres fossem parasitas, sustentados cruel e desumanamente por pobres coitados que, em troca, entregam de bom grado suas vidas a eles. Os nomes da monstruosidade variam, e as fontes chamam-nos de nosferatusanguini homini, incubus, sucubu, vampiro. As mesmas fontes apontam inequivocamente para o fato de que se tratava de uma linhagem deturpada desenvolvida Colônia Portuguesa no século XVI, estando longe de ser bem definida de acordo com o os documentos que Pietro tinha a mão. E assombravam ao jovem pesquisador quando ele comparou, nas lendas compiladas, o nome e o possível tipo de vitima da criatura que provinha da fazenda do Barão, o possível oponente que perseguiam.

Mas era possível, de acordo com a pesquisa empreendida pelo jovem Caçador, enfrentar tais horrores. A luz do sol os destrói totalmente com seus raios dourados e purificadores enviados pelo Criador, posto que agia como o juízo final sobre sua existência execrável. As coisas sagradas como água benta e o crucifixo também os reprimem, pois não suportam a santidade emanada por estes paramentos. De forma semelhante, os corpos mortos são altamente vulneráveis a armas extraídas diretamente de material vivo - ou que já fora vivo - como madeiras e ossos que, ao contrário das armas comuns criadas pelo homem - as quais somente atordoam e causam mínima dor - podem feri-los e até destruí-los. Por fim, a alimentação bizarra de tais criaturas é o que ainda as mantém entre os vivos, portanto certas especiarias, legumes, grãos e raízes causam-lhe uma dor excruciante por lembrar ao corpo e a alma da criatura o horror de sua existência, sua condição inaceitável dentre os vivos. Pietro encontrou várias versões para esta alergia de acordo com a região do país ou até mesmo do mundo onde fosse consumida, como por exemplo, alho, arroz e pimenta. Todavia, parecia que, ao menos na colônia, o remédio infalível contra tais seres foi a farinha de mandioca.

Quanto aos Cães da Meia Noite, os mitos eram abundantes. Também chamado de cão do inferno, pois de lá são oriundos, criados por demônios e outros espíritos malignos do Além pra atuarem como seus “cães de guarda” ou “cães de caça”. Somente seu bafo fervilhante é mais mortal e medonho que seu latido, o qual Pietro conhecia muito bem. Como a origem destas abjetas criaturas é a noite e a escuridão, eles também são vulneráveis à luz do sol, tanto quanto a paramentos sagrados.

Não era difícil imaginar, acreditava o Caçador, que os sacrifícios de animais realizados por Mata Bode trouxeram estes monstros caninos para o Mundo dos Homens. Mas o pior:

- Do que se tratam os rituais satânicos aos quais Mata Bode submeteu Maria, já que estes de forma alguma podem estar relacionados aos ritos blasfemos de conjuração de Cães da Meia Noite? - perguntava para si mesmo.

Naquele momento, o rapaz recebeu o maior susto de toda a sua vida.

Inúmeros pombos malhados chocaram-se violentamente contra as janelas gloriosas e antecedidas por imagens barrocas da fachada do prédio. Somente um milagre explicaria o fato de seu coração não ter paralisado diante de cena tão assombrosa.

Após recuperar o fôlego e estabilizar sua respiração, o Caçador anotou tudo o que descobriu em seu caderninho, sobretudo tendo o cuidado com as possíveis fraquezas das monstruosidades. Retornou então para o quartel da Companhia onde servia.

Trecho do livro Sombras da Revolução.



Os Segredos sob a terra (cont.)

 Isabela se aproximava da Caverna das Amendoeiras, vindo pelo matagal de folhas escuras e secas. Os quatro caçadores que a escoltaram até al...