Uma viúva atendeu a porta. Tocara a campainha uma mulher alta, de olhos azuis claros e cabelos negros lisos que chegavam a brilhar quando a luz refletia sobre eles.
Intrigada a viúva mirou, com os olhos marejados de lágrimas, a visita que havia chegado. Buscou uma forma de repreender a falta de educação daquela estranha, por bater em sua porta naquela hora da madrugada.
As palavras, porém, fugiam de sua boca. Não reagiu quando a estranha mulher adentrou em seu belo casarão.
A visitante caminhava de forma majestosa e sem nenhum constrangimento pela sala de mobília nobre, estufados escarlates, talheres, lamparinas e castiçais de ouro. Ela ostentava brincos e colares brilhantes, como o vestido justíssimo em seu corpo de pele delicada.
Um grande relógio de madeira marcava exatamente meia-noite. Um gramofone que tocava uma balada tristíssima.
As palavras, porém, fugiam de sua boca. Não reagiu quando a estranha mulher adentrou em seu belo casarão.
A visitante caminhava de forma majestosa e sem nenhum constrangimento pela sala de mobília nobre, estufados escarlates, talheres, lamparinas e castiçais de ouro. Ela ostentava brincos e colares brilhantes, como o vestido justíssimo em seu corpo de pele delicada.
Um grande relógio de madeira marcava exatamente meia-noite. Um gramofone que tocava uma balada tristíssima.
– Você fará um favor para mim – disse a misteriosa visita, olhando para oquadro na parede onde figurava a dona do casarão, em lindíssimo vestido de noiva, e um homem de smoking igualmente requintado.
Nem na foto, nem pessoalmente, a viúva aparentava ter sequer quarenta anos.
– O-oque? – perguntou a dona do casarão, de olhos arregalados para aquela mulher. Estava com a mão na maçaneta e a porta ainda aberta, pela qual era possível ver a Lua Crescente no céu.
– Você comprará um imóvel abandonado na Cidade de Serafins. Lá, construirá um hospício, contratando médicos e enfermeiros. Haverá um único quarto, e um único paciente.
A anfitriã tentava desesperadamente compreender por que não colocar aquela mulher para fora, logo depois de exigir saber quem era ela e por qual razão deveria obedecê-la.
Mas a única coisa que conseguiu fazer foi indagar:
– Quem será este paciente?
A visitante virou-se à anfitriã:
– Apenas construa – respondeu a mulher – A pessoa se apresentará a você, voluntariamente.
A dona do casarão franzia a testa, meneando lentamente a cabeça.
– Devo então pagar pelo tratamento desta pessoa? – perguntou.
– Não. Ela ficará apenas oito dias. Depois você deverá dar-lhe alta. Independente do que os médicos disserem.
A anfitriã apenas contemplou o andar imponente de sua visita enquanto ela ia em direção à porta. E, com a Lua cheia brilhando ao céu, olhando de forma blasé por cima do ombro, ela arrematou:
– Mais uma coisa. Você terá de inaugurar o hospício e receber seu paciente na ultima noite de Lua Cheia, assim que concluir as obras. Tão logo o sol se ponha.
Ela desceu o lance de três escadas que levavam à porta do casarão. Atravessou o jardim, passou pelo pequeno portão e caminhou em direção à esquina, desaparecendo na noite.
Quanto a dona do casarão, ela ainda estava lá. De pé. Boquiaberta e segurando a maçaneta da porta escancarada.
…
Os dias se passaram. A viúva mal dormia. Varava as noites acordada, escutando músicas tristes no gramofone. Tentou até poderosos calmantes e chás para dormir. Nada.
Madrugada após madrugada, ela só fazia lembrar da estranha mulher de beleza exuberante que havia lhe visitado. Quem seria ela? Que pedido estranho era aquele? E porque não conseguia esquecer essa história toda?
Quase uma semana, e ela não suportou mais. Foi até uma corretora de imóveis, e começou a agilizar a compra de um imóvel para fazer o hospício. Na verdade, o mini hospício.
As semanas foram se passando conforme ela contratava pessoal especializado, pedia ajuda, leia sobre hospitais psiquiátricos em bibliotecas e as obras andavam em Serafins.
Seu sono, contudo, foi melhorando sensivelmente neste período. E, para seu deleite, cada vez mais sonhava com o falecido marido. Sonhos vívidos, belos, nos quais ela dançava com ele, bebiam, comiam, riam. Era como se ele pudesse visita-la todas as noites, em seus sonhos.
Assim o tempo foi se passando. A obra quase pronta. Os sonhos, cada vez mais intensos.
A próxima Lua Minguante se aproximava. Era a hora de finalmente dar um fim àquilo tudo e, quem sabe, desvendar tal mistério.
…
A noite se aproximava. O hospício ficava numa rua movimentada de Serafins, onde havia muitas lojas, botequins e cafés. Era um prédio improvisado de quatro andares, na frente do qual estava a viúva, com sua tradicional elegância e discrição nos trajes negros, quatro enfermeiros, uma secretária e um psiquiatra, todos contratados.
Todos intrigados, pois jamais entenderam a história da tal viúva. Mas, como o salário estava em dia…
Chovera muito, e a rua estava molhada. O crepúsculo anunciava que o sol já se retirava no horizonte. As luzes da rua já estavam acesas, e a qualquer momento a Lua Cheia reinaria no céu cujas nuvens da chuva já haviam se dissipado.
Todos então viram se aproximando o belo Chevrolet vermelho 1915.
A viúva respirou fundo e arregalou os olhos ao ver a mesma mulher que meses atrás havia lhe procurado numa noite de Lua Crescente para pedir que abrisse o hospício. Ela estava banco elevado da parte de trás do carro, entre dois belos homens de smoking branco e flores-de-maio adornando o bolso do paletó. Em um justíssimo vestido vermelho decotado beijava a ambos os rapazes, mordiscando seus lábios e bebendo com eles às gargalhadas em taças de champanhe.
O carro parou.
Ela desceu. Claramente afetada pela bebida.
– Então – perguntou, com a voz embriagada, a misteriosa mulher – onde fica meu quarto?
Ela entrou, acompanhando dos enfermeiros e do psiquiatra.
A porta ficou aberta. com a viúva perdida num olhar vazio, iluminada pelas lamparinas da rua e pela tênue Lua Cheia no céu.
No dia seguinte, seria Lua Minguante. E o terror começaria...
No dia seguinte, seria Lua Minguante. E o terror começaria...

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