quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Lamento de Tupã - Jururá-Açu e os Segredos sob a Terra

 - Dá-nos de beber! Dá-nos de beber!


A virgem veio na direção daqueles murmúrios. Eram ecos cavernosos, que subiam pela grama e pelos arbustos espalhados no pé da serra:


- Dá-nos de beber! Dá-nos de beber!


Ela se abaixou, e passou a mão pela grama. Depois, colocou os cabelos negros do lado oposto de um dos ouvidos, aproximando-o do chão e afastando a cabeça em seguida.


- Q-quem são vocês? – perguntou a donzela, aproximando os finos lábios da grama ao chão.


- Dá-nos de beber! Dá-nos de beber! - repetiam as vozes lá embaixo.


Ela se levantou. Com os braços semiabertos, abriu as mãos. Fechou os olhos, inspirando e expirando suavemente: a cada inspiração, o orvalho da madrugada surgia, e a cada expiração, ele caia sobre a grama, sobre as folhas e sobre os arbustos pela serra.


Quando o orvalho tomou toda a terra, os gemidos cessaram.


- Vocês ainda estão aí? – ela perguntou.


- Daqui não podemos sair! - responderam.


A virgem suspirou, e fechou de novo os olhos, voltando a inspirar e expirar numa intensidade maior que se percebia no mover de seus desnudos seios. A expiração trouxe intensa chuva que, diferente do orvalho, desabou sobre a serra. Enquanto caia a tempestade, a moça movia horizontalmente os dedos das mãos, como se estivesse revirando o solo duro para que a chuva penetrasse mais e mais na terra.


Os ecos cavernosos voltaram a ser ouvidos. De lá de baixo, mãos carcomidas abriam caminho pelo chão fofo, surgindo feições distantes e em agonia. Algumas pareciam pertencer a homens, outras, a veados, antas ou tatus. Todas carcomidas, porém translúcidas, se erguiam do chão molhado enquanto uma fumaça de odor sepulcral subia aos céus.


Ela então se voltou a eles, com sorriso cândido.


- Ele ainda está preso! – disse um deles, apontando para uma protuberância mais adiantada na serra.


Ela se virou para o local indicado, e cerrou a mão esquerda. A tempestade ficou mais intensa. Com a mão direita, inclinou o vento e a chuva para a protuberância da serra. A pedra foi transformada em lama, e revelou uma caverna cuja escuridão veio sendo dissipada, como se uma tocha brotasse das profundezas da serra.


Os gemidos dos mortos vivos imaediatamente retornaram, não mais cavernosos, mas em tom de êxtase e intercalados com assobios. O som, que tomou toda a serra, pôde ser pavorosamente ouvidos nas aldeias mais distantes.


Finalmente, ele surgiu do fundo da caverna, e a fumaça emanada pela chuva que caia-lhe sobre o corpo subiu até o mais alto céu.


Todos retiraram-se dali, seguindo aquele que brotou das profundezas da serra, não sem antes beijarem as mãos e os pés da virgem. Somente ela ficou na serra, correndo em direção à caverna, excitada por curiosidade explítica em sua face.


Ela ficou lá embaixo até perder os sentidos de quanto tempo passara nas entranhas do Mundo Subterrâneo, até ser interrompida pelo primeiro relâmpago que caiu das nuvens formadas sobre a serra. Se assustou como nunca antes em sua Eternidade: olhou para cima, e mesmo de lá das profundezas das trevas da Mundo Subterrâneo, podia contemplar os céus.


A donzela gritou pela primeira vez.


A subida foi dolorosa, após gritos de horror.


Sobre a serra, de frente para a caverna aberta, seria possível vê-la surgindo. Com uma outra nova chuva caindo sobre si, ela urrava enquanto suas delicadas pernas e braços tornaram-se enrugados, os longos cabelos negros caíram de sua cabeça e o ventre esbelto enrijeceu-se, tornando-se esverdeado. Os redondos e pequenos seios desapareceram. Das costas, brotou indestrutível casco. E o rosto de traços encantadores tornou-se a cabeça de uma tartaruga.


A imensa Jururá-Açu ali clamou, desesperada. As nuvens no céu se dissiparam. E o sol nascia ao horizonte, lançando a sombra de sua nova e gigantesca forma sobre a entrada da caverna na serra.

 


São Paulo, 1949


Ninguém pode desconectar-se assim com o mundo, mesmo que tenha escolhido outro – dizia o bilhete que Isabela encontrou quando abrir seu diário. Tinha ouvido as mesmas palavras da boca de sua mãe, antes de sair de casa batendo a porta e jurando não mais voltar.


O sol da manhã brilhava sob a aldeia dos Nhandeva. Isabela, que havia se levantado junto com seus anfitriões, devolveu ao diário o bilhete que sua mãe lá deixara, encontrado em seguida um retrato do pai. Após passar carinhosamente o dedo sobre a fotografia, retornou à página marcada do diário, pondo-se a anotar que ouvira na noite anterior. 


“Não hã, dentre as muitas etnias grosseiramente generalizadas de ‘indígenas’, tribo mais nobre e enigmática que os Jaguarí. No passado homens de grande ciência, sabedoria e poder, foram os guias de todas as crias de Nhanderuvuçu sobre a terra, numa época em que a guerra já não existia e a caça, pesca e agricultura alimentavam a todos. Foi assim até mesmo nos momentos difíceis, quando os temíveis espíritos malignos de Tau - espírito da escuridão - cobriram a terra com as trevas, e quando Luzizu trouxe a morte aos homens. Para ela (a morte) os nobres Jaguarí deram propósito e explicação.


Mas a Era dos Jaguarí se encerrou com o Dilúvio. Eles guiaram alguns escolhidos de outras tribos até Juruoca, a enorme caverna que levava até o centro da terra, lacrando-a e protegendo os homens da morte pelas águas. Quando estas recuaram, os Jaguarí trouxeram as tribos de volta a Pindorama para, então, desaparecerem, entristecidos, cabisbaixos e decepcionados.


Nenhum Pajé ou índia anciã jamais me explicou a razão deles terem abandonado as demais tribos e desaparecido de forma tão melancólica. Contam apenas que, após a partida dos Jaguarí, as tribos aprenderam as artes da guerra e passaram a se odiar, lutando por território onde a caça e a pesca fossem abundantes.


Isabela ainda se lembrava da noite anterior, quando ouvira aquela história narrada cerimonialmente pelo Nhanderu em torno da fogueira no centro da aldeia. Estava seminua, pintada à moda nhandeva e relaxadamente sentada próxima ao fogo. Ouvia ao Nhanderu enquanto saboreava um peixe assado temperado de forma que nenhum gourmet parisiense poderia fazer. Enquanto escutava, calculava como traduzir tamanha rizqueza para sua tese de doutoramento: não ousava dar à narrativa qualquer peso de fato, mas, por tudo o que já vira habitando entre os nativos – coisas que nunca teve coragem de relatar a seus professores na França – mantinha sua mente acadêmica dosada pelo fascínio.


Foi quando o grito de horror ouvido do lado de fora da oca trouxe a mulher de volta dos pensamentos.


Na parte central da aldeia, uma jovem nhandeva e seu irmãozinho choravam de desespero, relatando aos seus irmãos a podridão das frutas nas árvores e os peixes, fedorentos, a boiar na superfície do riacho alí perto. Isabela, que entendia perfeitamente o idioma, se aproximou enquanto os aldeões questionavam ao velho e sábio Nhanderu o que estaria acontecendo.


O velho pajé proferiu a palavra em tupi, e os aldeões recuaram, com olhos esbugalhados, tapando as mãos com as bocas.


Isabela não compartilhou das expressões de horror, mas observava com olhos zelosos a cena. Já tinha ouvido sobre o artefato que o Nhanderu acabara de mencionar. Em tempos imemoriais, um ancestral Nhandeva teve de lutar contra um vento noturno que causava arrepios. Domando as bestas da mata, tornava seus olhos vermelhos e fazia o fogo se alastrar. A morte lhe antecedia e lhe seguia em sinais de folhas secas, frutas podres e peixes mortos. O nome dele era Anhanguera, a besta do deus da morte Anhangá.


Um valente guerreiro matou bestas dominadas pelo Anhanguera, três vezes, três delas. Anhanguera reconhecia o valor de quem o vencia por três vezes, e nunca mais atacava nem ao vencedor, nem aos seus. Mas, quem deteria o Anhanguera? Continuaria ele a espalhar a morte?


Aquele ancestral Nhandeva encontrou um Jaguari, talvez o último deles entre os homens. O Jaguari esculpiu uma Ânfora, marcada com pinturas sagradas, que poderia aprisionar o vento assombroso. Pondo-se entre o monstro e uma pobre aldeia a ser consumida, o valente guerreiro aprisionou Anhanguera na Ânfora e, sob orientação do Jaguari, a guardou numa das antigas cavernas que eram morada dos misteriosos ancestrais. A Caverna das Amendoeiras.


Desde então, a aldeia guarda a caverna. Não tem permissão para entrar lá: é tabu o pelo ancestral que venceu ao Anhanguera. Isto porque só os Nhandeva poderiam sobreviver se lá. Qualquer outro que o fizer, este morrerá, por não conhecer os mistérios da Caverna.


- Alguém tirou a Ânfora da Caverna das Amendoeiras - sentenciou o velho pajé.


- Só nós sabemos como entrar e sair. Só nós podemos entrar. Vou até lá e entender o que aconteceu - disse o Cacique, enquanto os caçadores e guerreiros da aldeia se movimentam para pegar suas armas.


- Não - ordenou o Nhanderu - É tabu - respondeu, sentando-se pesarosamente num tronco de madeira, apoiado por seu cajado.


- Então porque os segredos do templo foram-nos revelados através do senhor e dos outros Nhanderu, seus antepassados?


O ancião direcionou um olhar paterno ao Cacique:


- Para que nós sejamos justamente os guardiões do santuário - respondia - e para testar nossa honra e sabedoria, não usando este segredo de forma leviana. Pelo mesmo motivo, não posso consultar os ancestrais para saber o que se deu. Nem eles podem entrar lá.


- “São apenas mitos criados para impedir a entrada desta e de tribos rivais. Que poder de persuasão!” - pensou Isabela consigo mesmo. Logo depois, e devido ao mesmo pensamento, os olhos dela brilharam de excitação:


- Eu não sou Nhandeva! - gritou mulher, ousadamente, distante que estava do Nhanderu cercado pelo Cacique e demais guerreiros.


A aldeia imediatamente se voltou para Isabela, “a brava e gentil donzela branca de olhos de amêndoa”.


- Mas entrar no Caverna das Amendoeiras é coisa para os mais valentes guerreiros – retrucaram os mais novos.


- E nossos lugares sagrados não são para caraíba! - arremataram os mais velhos.


- A minha entrada não quebra o tabu. Basta vocês me prepararem para o que devo enfrentar – argumentou Isabela.


A tribo entrou em alvoroço.


- Não podemos confiar nos olhos de amêndoa! - disse Jepê, um dos caçadores da aldeia - Ela pode roubar a Ânfora ou nos fazer algum mal - acusava o índio, recebendo concordância de alguns.


 - Talvez seja a única saída! - diziam outros.


- Vocês não sabem o que dizem! Como esta mulher branca entraria e passaria na caverna? - insistia Jepê.


O Cacique, emburrado, concordou com o caçador:


- É verdade. Ela não conseguirá.


- Conseguiria se o Nhanderu lhe desse orientasse - respondeu um dos anciões, logo seguido por outros - É verdade. Sim, é verdade!


- Isso é loucura! - questionou Jepê, caminhando em direção a Isabela e olhando-a de cima a baixo - Não podemos confiar nosso destino a esta mulher banca!


- Em meu coração, sou uma de vocês - respondeu Isabela para Jepê, fitando-o de forma corajosa.


 - Ela jamais nos deu motivo para duvidar de sua palavra – disse uma anciã, a mais velha dentro todos ali. Ela tinha acabado de sair de sua oca, o que raramente fazia, e se aproximava enquanto os demais abriam caminho.


A tribo se voltou para o Nhanderu que, por sua vez, direcionou o olhar para o Cacique o qual, finalmente, ainda que relutando, concordou balançando a cabeça.

 

- Vocês são loucos! – murmurou Jepê.


O Nhanderu se virou para Isabela, chamando-a com um dedo. Ela obedeceu, enquanto os demais aldeões fizeram um círculo entre eles dois. 


- Preparem as pinturas, pois temos muito a fazer no corpo dela e pouco tempo - ordenou o pajé.


- Quais pinturas faremos no corpo dela? – perguntaram.


- Todas – respondeu ele.




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