sábado, 28 de novembro de 2020

Lamento de Tupã - Jací e a Criação do Mundo: Segredos sob o Céu

A jabuticabeira estava finalmente plantada. Terminado o trabalho, ele se sentou junto ao tronco: podia, enfim, contemplar a Criação.

Mas aqueles olhos, cansados tanto quanto santisfeitos, foram lentamente tosquenejando, não importava o quanto tentava mantê-los abertos. Quando o corpo acomodou-se junto ao tronco da jabuticabeira, os olhos flamejantes, cada vez mais pesados, não resistiram.

Assim que ele dormiu, o fogo foi ocultado pelas pálpebras, e a terra caiu em trevas. Os bichos se escolheram em meio ao breu e as folhas, tão jovens, sufocaram.

A Criação gemeu de medo e, dentre as estrelas, ela ouviu.

Descendo dos céus até a mata, ela procurou por entre as árvores, não tardando a encontrar o homem nu e de pele dourada dormindo junto a jabuticabeira. O brilho flamejante daquele corpo foi refletido pelos olhos e cabelos da donzela, reluzindo em prata diante de toda a Criação.

Os peixes foram então reconfortados e as folhas, enfim, respiraram.

Com a mão acariciando-lhe o rosto, ele acordou. Boquiaberto, olhava para os lábios delicados e seios atrevidos da donzela que, admirando-lhe o viril peitoral, detinha-se em sua boca. Num ímpeto, ela se lançou sobre ele, acomodando-se em sua ereta genitália enquanto segurava-o pelos cabelos.

A paixão do beijo que se seguiu os fez arder.

Ele ofegava, ela gemia. A penetração estremeceu a terra com o mover dos corpos, e a Primeira Montanha formou-se com vento da líbido dos amantes.

- NÃO! - a negativa dele fez chorar todos os pássaros da Criação.

- Guaraci, meu amor! - ela suplicou, após ser tirada de sobre seu amante.

- Você não pode suportar meu calor – disse ele, subindo ao céu com lágrimas a descer pelos olhos – e a Criação necessita de ti.

Ela também chorou, contemplando o céu. Ouvindo-a, as feras e os pássaros vieram consolá-la, enquanto as folhas caiam sobre seus cabelos, louvando silenciosamente por aquela que fora a Noite Primeva.
...

Minas Gerais, 1937.

- Quem será uma hora dessas? - murmurou dona Gestrudez, ao ouvir o toque da campainha.

Abriu a porta, Recuando diante da mulher de feições delicadas e longos cabelos negros. Ela adentrou, olhando em redor na sala de paredes brancas e tons dorados enquanto Dona Gertrudez segurava, pasmad,a a maçaneta.

A recém-chegada caminhou por entre a mobília nobre da sala num vestido prata justíssimo que marcava-lhe o corpo torneado.

No rádio, tocava Chão de Estrelas.

-Você fará um favor para mim – disse a mulher, depois de parar diante de um quadro na parede onde figurava Dona Gertrudez, ainda jovem e vestida de noiva, ao lado de um homem de smoking.

- Que? – Dona Gertrudez ainda segurava a maçaneta da porta.

- Você comprará um imóvel abandonado na Cidade de Serafins. Lá, construirá uma casa de repouso, contratando médicos e enfermeiros. Haverá um único quarto, para um único hóspede.

Dona Gertrudes, franzindo a testa, suspirou antes de refazer a primeira frase que lhe viera à mente:

- Quem será este hóspede?

A mulher passou a contemplar o relógio, que marcava meia-noite em ponto.

-Apenas construa – respondeu ela – o hóspede se apresentará a você, voluntariamente.

A dona do casarão meneava lentamente a cabeça:

- E eu vou pagar pela estadia desta pessoa? – perguntou ela.

- Não. E a pessoa ficará somente duas semanas. Depois, irá embora, mas esteja atenta ao seu retorno.

A anfitriã viu a mulher se retirando em direção ao quintal, com a Lua Crescente sobre si. Olhando de forma blasé por cima do ombro, a visitante concluiu:

- Mais uma coisa. Você terá de inaugurar a casa de repouso e receber seu paciente na última noite da Lua Cheia, assim que concluir as obras. Tão logo o sol se ponha.

A mulher atravessou o jardim e saiu pelo pequeno portão, desapareceu virando a esquina, debaixo do olhar de D. Gertrudes, ainda de pé junto à porta e segurando a maçaneta.

...

Dona Gertrudes ouvia outra balada triste no rádio ao lado da cama, junto do qual ficavam um cópo com água e comprimidos para dormir. Madrugada após madrugada era a mesma coisa:

- Quem é aquela mulher? Que estanho pedido era aquele? Como não consigo tirar isso da minha cabela? - se perguntava.

Quando o sol raiou, tomou uma decisão. Foi até uma corretora de imóveis e começou a agilizar a compra do imóvel. Chegou em casa cansada como nunca, deitando-se na cama e, finalmente, após dias, dormiu. Dormiu como há muito não dormia. Em doces sonhos, dançava e bebia com seu falecido marido.

Assim se passaram as semanas. Conforme a obra se aprontava, os sonhos se tornavam cada vez mais intensos.

A última Lua Cheia se aproximava.
...

O sol se punha. dona Gertrudez esparava em frente à casa de repouso, entre lojas, boutiques e cafés da movimentada rua de Serafins. Junto a ela, enfermeiros e uma cuidadora.

- Me informe as horas, por favor - pedou Dona Gertrudez a um dos enfermeiros.

Ele não respondeu a tempo. As luzes dos postes foram todas se acendendo, e veio um Chevrolet - 1915 vermelho sangue pela rua molhada devido a chuva que caíra durante o dia.

Dona Gertruzes arregalou os olhos quando viu a mulher que havia lhe procurado semanas atrás no banco elevado da parte de trás do carro. Ela vinha entre dois belos rapazes de smoking branco e flores-de-maio adornando o bolso de seus paletós. Beijava a ambos, mordiscando seus lábios entre gargalhadas e doses de champanhe que tomavam nas taças de cristal que traziam nas mãos.

O carro logo estacionou diante a casa de repouso. Auxiliada pelo motorista, a mulher desceu, afetada no andar, segurando parte do justíssimo vestido vermelho que trajava. 

- Então? – perguntou ela, com sorriso aos lábios e voz embriagada – onde fica meu quarto?

A cuidadora a acompanhou para dentro da casa, cuja porta ficou aberta. E, do lado de fora, Dona Gertrudez observava a cena, boaquiaberta, iluminada pelas lamparinas da rua e pela tênue Lua Cheia no céu.



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