domingo, 12 de abril de 2020

Picê, a deusa Tupi da poesia

O espelho refletia a donzela de cabelo negro. Picê sequer contava as vezes em que olhava seu semblante ansioso, ali refletido.

Ela acendeu então mais um cigarro, pondo-se a caminhar, descalça e em seu vestido de fenda generosa, entre os antiquários espalhados pelo outrora suntuoso saguão. Tragou, suspirou, expirou e bufou.

A fumaça expelida de seus lábios, onírica e com vida própria, saia pelas janelas, espalhando-se mundo afora.

Quanto a Picê, terminado o cigarro, voltava ela para diante do espelho...




sábado, 21 de dezembro de 2019

Picê, a deusa da poesia

Na aurora da Criação, quando mesmo o grande avô Nhanderuvuçu ainda caminhava entre os homens, surgiu uma donzela nascida da primeira brisa do por-do-sol. Ela ia e vinha livremente pelas aldeias, e toda vez que passava, punha nas almas um sentimento arrebatador.

A donzela soprava junto a nuca dos primeiros homens e as primeiras mulheres, e imediatamente eles e elas se punham a entoar cânticos e expressar rimas. Rimas para amar, para rir e para guardar o conhecimento na forma de cânticos sagrados, doutra forma impossíveis de se registrar e transmitir.

Com o tempo, os ñanderu  (xamãs e sacerdotes guaranís) entenderam que a misteriosa donzela era uma Nhande (alma sagrada...deusa) surgida da própria Existência, assim como Tupã, Jací e outros dos primevos. Veio para entregar aos homens a poesia, e foi chamada de Picê.

Até que Tupã desapareceu entre as estrelas, entristecido com a maldade dos homens.

No ínicio, a caprichosa Picê encantou-se com os homens de pele branca e com os homens de pele negra que eram trazidos a força. Um tanto confusa, mantinha lembranças turvas de ter soprado seu encanto também entre eles, e de ser chamada por outros nomes. Foi e veio também entre eles, pouco se importando com os horrores da nova era.

Para Picê, aquela mistura lhe foi como uma grande orgia. Mas os séculos passaram e uma tristeza lhe tomou: ao contrário dos guarani, que lhe conheciam, honravam e até presentearam com um nome, o Mundo dos Caraíba lhes ignorava. Quanto mais se poetisava, mais se lhe ignorava.

Isto seu orgulho não podia suportar.

A donzela então ergeu seu refúgio na Cidade do Rio das Almas, o inferno do Anhangá, que os Caraíba chamam de São Paulo. Cheia de amargura, enclausulou-se no saguão de uma outrora gloriosa mansão, na qual noutros tempos empreendiam constantes saraus.

E desde então, vestida austeramente, como uma velha rancorosa, a deusa de aparência jovial passa os dias naquele mansoléu de paredes carcomidas. Entregue a cigarros, chicaras de café e livros, murmura diante de espelhos acerca do oblivio dos homens com relação as poesias que eles mesmos escrevem, após receber seus doces sopros junto a alma.

Picê, arte de Vinicius Galhardo.


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Fim das Atividades do Blog.

Para quem acompanha o blog, informo que as atividades relacionadas a propostas de cenários nacionais e mitologia indígena chegaram ao fim.

As razões são simples: eu produzi um cenário para jogadores e mestres pegarem ideias no blog e usarem em seus jogos, ignorando a produção. Já cheguei a ver comentários do tipo "Lamento de Tupã? Nunca ouvi falar. Mas esse blog é legal, já peguei informações ai para jogos que mestrei".

Isto vem ocorrendo também após uma grande decepção de um editor de jogo conhecido no Brasil, que se ofereceu a publicar os cenários aqui descritos (não apenas Lamento de Tupã) e que cheguei a julgar meu amigo (ele frequentou minha casa), mas que simplesmente desistiu, parou de me responder e ainda teve a audácia de mentir dizendo a alguns leitores do blog (que vieram me procurar depois) que eu havia "declinado do projeto, infelizmente".

Eu fico feliz por ter ajudado nos jogos de quem consultou o blog. Mas meu objetivo principal era compor meus próprios cenários, não me restringir a um fornecedor de ideias.

Se alguém se interessar pelo que escrevo, informo que migrei para o Wattpad (https://www.wattpad.com/user/SilvaPacheco7). Praticamente não tenho leituras lá, mas, devido ao tipo de plataforma, as leituras, se ocorrerem, serão mais voltadas para o que pretendo fazer (neste caso, romances e contos). Trechos relativos a contos ou romances permanecerão no blog por algum tempo (ainda estou vendo se mantenho aqui e no Wattpad), mas todo material de cenário, descritivo com ou sem regras, está sendo retirado e reservado como rascunho para consulta pessoal.

Para quem ainda restou, que goste de Lamento de Tupã, ou de quaisquer dos cenários produzidos aqui, meu muito obrigado e um forte abraço.




domingo, 1 de julho de 2018

Recrutando a escória

- São aqueles? – perguntou o homem de cabelos grisalhos e terno escuro alinhado, que acendia um cigarro. 

- Sim senhor – respondeu o negro imponente de terno branco igualmente alinhado, acabando de chegar ao escritório do galpão.

De lá era possível ver os quatro candidatos próximos a uma mesa. O homem de terno branco então prosseguiu, lendo uma pasta com o símbolo da Polícia Civil em suas mãos:

O sujeito negro de coturno, camiseta branca e cartucheira montando as metralhadoras é um ex-armeiro da PM. O cafajeste em terno riscado de giz, cabelo com brilhantina e bigode fino é um golpista que conhece as entranhas da boêmia. E a morena de cabelos encaracolados tatuagem de vitória régia que exibe na coxa pela fresta do vestido é uma especialista em venenos, usando sua pequena farmácia como fachada.

- Perfeito – respondeu o homem de cabelos grisalhos - incorpore-os como Agentes Extranumerários.

O subalterno retrucou:

- Mas, Doutor, são marginais! Um foi expulso por abuso de poder policial, e os outros dois poderiam, se levantássemos as provas, ser presos agora: ele por contravenção, ela por ser cúmplice de assassinato!

O homem de cabelos grisalhos pegou a pasta que o homem negro lera, colocando-a debaixo do braço.

- É por isso que não mandei colocá-los como Efetivos – respondeu o Delegado, retirando-se do local.


domingo, 20 de agosto de 2017

Jaci: a deusa da Lua entre os homens brancos

Uma viúva atendeu a porta. Tocara a campainha outra mulher: alta, de olhos azuis claros, pele delicada e cabelos negros lisos que refletiam intensamente o brilho da lua cheia.

Intrigada ela mirou, com seus olhos marejados de lágrimas, a visita que havia chegado. Buscou uma forma de repreender a falta de educação daquela estranha, por bater em sua porta ao início da madrugada. As palavras, porém, fugiam de sua boca: parecia arrebatada pela presença daquela outra mulher, cujos brincos e colares eram prateados como o vestido justíssimo em seu corpo.

A viúva não esboçou reação quando a estranha mulher adentrou em seu belo casarão. Caminhava de forma majestosa e sem nenhum constrangimento pela sala: mobília nobre, talheres, lamparinas e castiçais de ouro, estufados escarlates. Um grande relógio de madeira marcava exatamente meia-noite. Um gramofone que tocava uma balada tristíssima.

- Você fará um favor para mim – disse a misteriosa visita, olhando para um quadro na parede onde figurava a dona do casarão, em lindíssimo vestido de noiva, e um homem de smoking igualmente requintado.

Nem na foto, nem pessoalmente, a viúva aparentava ter mais de quarenta anos.

- O-oque? – perguntou a dona do casarão, olhando embasbacada para aquela mulher. Estava com a mão na maçaneta e a porta ainda aberta, pela qual era possível ver o esplendor da Lua Cheia adentrar na sala.

- Você comprará um imóvel abandonado na Cidade de Serafins. Lá, construirá um hospício, contratando médicos e enfermeiros. Haverá um único quarto, e um único paciente.

A anfitriã tentava desesperadamente compreender por que não colocar aquela mulher para fora, logo depois de exigir saber quem era ela e por qual razão deveria obedecê-la. Mas a única coisa que conseguiu fazer foi indagar:

- Quem será este paciente?

A visitante virou-se à anfitriã:

- Apenas construa – respondeu – a pessoa se apresentará a você, voluntariamente.

A dona do casarão franzia a testa, meneando lentamente a cabeça.

- Devo então pagar pelo tratamento desta pessoa? – perguntou.

- Não. Ela ficará somente uma semana. Depois você deverá dar-lhe alta. Independente do que os médicos disserem.

A anfitriã apenas contemplou o andar imponente de sua visita enquanto ela ia em direção à porta. E, com a Lua cheia brilhando ao céu, olhando de forma blasé por cima do ombro, ela arrematou:

- Mais uma coisa. Você terá de inaugurar o hospício e receber seu paciente na primeira noite de Lua Nova, assim que concluir as obras. Tão logo o sol se ponha.

Ela desceu o lance de três escadas que levavam à porta do casarão. Atravessou o jardim, passou pelo pequeno portão e caminhou em direção à esquina, desaparecendo na noite.

Quanto a dona do casarão, ela ainda estava lá. De pé. Boquiaberta e segurando a maçaneta da porta escancarada.

...



Os dias se passaram e a viúva mal dormia. Varava as noites acordada, escutando músicas tristes no gramofone. Tentou até poderosos calmantes e chás para dormir. Nada.

Madrugada após madrugada, ela só fazia lembrar da estranha mulher de beleza exuberante que havia lhe visitado. Quem seria ela? Que pedido estranho era aquele? E porque não conseguia esquecer essa história toda?

Quase uma semana, e ela não suportou mais. Foi até uma corretora de imóveis, e começou a agilizar a compra de um imóvel para fazer o hospício. Na verdade, o mini hospício.

As semanas foram se passando conforme ela contratava pessoal especializado, pedia ajuda, leia sobre hospitais psiquiátricos em bibliotecas e a sobras andavam em Serafins.

Seu sono, contudo, foi melhorando sensivelmente neste período. E, para seu deleite, cada vez mais sonhava com o falecido marido. Sonhos vívidos, belos, nos quais ela dançava com ele, bebiam, comiam, riam. Era como se ele pudesse visita-la todas as noites, em seus sonhos.

Assim o tempo foi se passando. A obra quase pronta. Os sonhos, cada vez mais intensos.

A próxima Lua Nova se aproximava. Era a hora de finalmente dar um fim àquilo tudo e, quem sabe, desvendar tal mistério.

...

A noite se aproximava. Numa rua movimentada de Serafins, onde havia muitas lojas, botequins e cafés, estava o hospício: um prédio improvisado de quatro andares, na frente do qual estava a viúva, com sua tradicional elegância e discrição nos trajes negros, quatro enfermeiros uma secretária e um psiquiatra, todos contratados.

Todos intrigados, pois jamais entenderam a história da tal viúva. Mas, como o salário estava em dia...

Chovera muito durante o dia, e a rua estava molhada. O crepúsculo anunciava que o sol já se retirava no horizonte. As luzes da rua já estavam acesas, e a qualquer momento a Lua Nova reinaria no céu cujas nuvens da chuva já haviam se dissipado.

Todos viram então o carro vermelho se aproximando o belo Chevrolet vermelho 1915. 

A viúva respirou fundo e arregalou os olhos ao ver a mesma mulher que meses atrás havia lhe procurado numa noite de Lua Cheia para pedir que abrisse o hospício. Ela estava banco elevado da parte de trás do carro, entre dois belos homens de smoking branco e flores-de-maio adornando o bolso do paletó. Vestia um justíssimo vestido vermelho, e beijava a ambos os rapazes, mordiscando seus lábios e bebendo com eles às gargalhadas em taças de champanhe.

O carro parou.

Ela desceu. Claramente afetada pela bebida.

- Então? – perguntou, com a voz embriagada, a misteriosa mulher – onde fica meu quarto?

Ela entrou, acompanhando dos enfermeiros e do psiquiatra.

A porta ficou aberta. com a viúva estupefata, iluminada pelas lamparinas da rua e pela tênue Lua Nova no céu.



sexta-feira, 21 de julho de 2017

O ANCESTRAL QUE ROUBOU O FOGO - o Retorno de Mahyra (Mitologia Indígena em Lamento de Tupã, Ep. 02, Tem. 01)

- Porque voltou até aqui? – perguntou a grande Arara Vermelha ao homem belo, forte e imponente, logo após pousar ao galho chamuscado da única árvore que restara de pé.

- Foi onde tudo começou. Sempre venho aqui antes de tomar uma decisão – respondeu Mahyra, cabisbaixo, naquele campo reduzido às cinzas e carvão.

- Vai mesmo em busca dele? – perguntou a grande Arara Vermelha.

Aquelas perguntas interrompiam lembranças. Com um pé sobre uma pedra, ele lembrava-se da batalha que travou em tempos tão distantes contra Ió-Uurubu, a fim de tomar-lhe o Segredo do Fogo e sobreviver ao incêndio que destruiu o Primeiro Paraíso.

- Antes, preciso retornar ao Mundo dos Homens – disse Mahyra, cuja resposta o vento soprou junto as cinzas do campo incendiado...



quinta-feira, 20 de julho de 2017

TUPÃ AFOGA AO ANHANGÁ: O SINISTRO BEBEDOURO DAS ALMAS (Lamento de Tupã, Episódio 01, Temp 01)

Um relâmpago despencou das estrelas, fazendo a água do rio jorrar numa altura acima das copas das árvores.

Debaixo d’água, agonizava o ser cujo rosto era uma pintura em forma de caveira. A poderosa mão segurava seu pescoço enquanto ele se debatia sob as águas do rio, que ferviam de forma cada vez mais intensa conforme lutava.

Quando o brilho de seus olhos vermelhos apagaram-se, ergueu-se então do rio outro corpo. A noite profunda não permitia vê-lo completamente se não pelo corpo belo e poderoso contra a luz da lua:

- Você não me deixou outra escolha – disse aquele que se ergueu do rio, tornando-se um relâmpago e retornando ao céu.

Em redor, criaturas gemeram, assobiando e fazendo com que as feras noturnas fugissem. Um farfalhar de folhas denunciava também a desesperada dos pássaros em redor. De toda parte, aquelas criaturas translúcidas e cadavéricas vinham em direção às margens do rio. Levavam água daquele rio à boca, como se tentassem desesperadamente saciar sua sede.

O funeral havia terminado. E daquele dia em diante aquele rio seria conhecido como Anhangabaú, o Bebedouro das Assombrações.




Os Segredos sob a terra (cont.)

 Isabela se aproximava da Caverna das Amendoeiras, vindo pelo matagal de folhas escuras e secas. Os quatro caçadores que a escoltaram até al...